há dez anos atrás | no translation

Ler reflexões críticas como a deste post do Flying Fleece, especialmente no início de mais um ano, faz-me recuar no tempo. Há dez anos atrás. Sim, dez.

Há dez anos atrás, andava eu em roda viva, de barrigão pesado com o meu primeiro filho, à procura de formas de me sustentar no meio da Serra do Açor. Licenciada numa área que continua a não aparecer no sistema informático do Instituto Nacional de Emprego e Formação Profissional, aventurava-me e ousava querer viver na terra e da terra.

Desde um curso de Jovem Agricultor em Oliveira do Hospital, à preparação de uma candidatura para um projeto de exploração de mirtilos (?) com a ajuda de engenheiros agrónomos de Coimbra, a frequência de um curso profissional de Vitivinicultura perto da Guarda, uma semana de trabalho de campo na Paisagem Protegida da Mata da Margaraça a aprender tanto sobre espécies autóctones e invasivas com especialistas de Aveiro, são tantas as peripécias que dificilmente as consigo lembrar a todas.

Desligada da academia e da Faculdade, foram poucos mas bons os amigos que ficaram de Lisboa e arredores. Lembro-me em particular de uma visita, a poucas semanas do meu primeiro filho nascer. Um pequeníssimo gesto que me emocionou muito.

No meio dessas andanças, conheci muitos estrangeiros, quase todos loucos, alienados, fora do sistema, que tinham vindo para Portugal em busca de saúde, de sol, de paz, de tempo, de ar fresco… E todos se queixavam do mesmo, é muito difícil, há sempre muitas papeladas para decifrar e tentar cumprir, os portugueses não estão muito abertos à mudança. Mas a vida moderna urbana e eletrónica e egocêntrica está condenada ao colapso e é preciso resistir, todos enfatizavam.

O que me mantinha a mim minimamente sã, com esperança e com motivação? A vida que nascia em mim, as leituras que tinha levado comigo, alguns ideais e, muito forte, o desejo de tratar dos meus avós e ajudá-los a ter uma vida digna até ao fim.

Os meus avós ajudaram-me muito nessa altura, mesmo quando não compreendiam o que eu queria fazer e mesmo quando discutíamos. Em parte, a minha visão da terra, dos ofícios e da dignidade da vida humana, pareciam chocá-los. Mas isto para mim era absurdo, pois sempre acreditei que foi sobretudo com eles que essas minhas visões se formaram!!!

Enfim, há dez anos, eu vivia na Serra do Açor, o meu primeiro filho estava quase quase a nascer, eu tinha mil projetos e não conseguia tornar nada realidade. Hoje, vivo na planície ribatejana, os meus quatro filhos estão aqui, vivos, lindos e autónomos, tenho zero projetos e tento viver um dia de cada vez.

Pelo meio, em Lisboa, recuperei o gosto pelas malhas e pus-me a reaprender a tricotar. Isto por altura da minha segunda filha nascer. Entretanto, vou sonhando com o tear e a fiação. Mas sem pensar muito.

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