nada acontece por acaso | nothing happens without a reason

O amor pelas lãs e a paixão pela sua origem não podem ser fruto do acaso.
*The love for wool and the passion for its origin don’t just emerge.*

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A meu ver, um amor tal tem necessariamente que nascer do cuidado, da preocupação, do zelo, da entrega. Do cuidado pelos nossos filhos, da preocupação com o corpo e a alma (deles e nossos), do zelo por um equilíbrio difícil no mundo (que nós muitas vezes pisamos e esmagamos sem hesitar), da entrega às forças sem nome (que nos rodeiam, que nos ajudam, que nos alimentam).
*The way I see it, such a love is born from the care. The care for our children, the care for the bodies and souls (ours and theirs), the care for the not so easy balance in this world (which we so often step and smash without even thinking about it), the care for the forces that surround-help-feed us.*

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E uma paixão assim também tem origem semelhante. De onde vem aquilo em que mexemos? De onde vem aquilo que cobre os nossos filhos? Como foi que isto veio parar aqui? Quem fez isto? Cá em casa, costumamos pensar nas pessoas que ofereceram a sua atenção e a sua energia para que tivéssemos uma bancada na cozinha, uma manta na cadeira, uma camisola no armário. (E não gostamos muito da sensação arrepiante de uma imensa fábrica, povoada por pessoas que já nem sabem o que é estar cansadas, rodeada por campos abandonados ou rios tingidos da mesma cor que a roupa da fábrica. Parece sempre tudo muito exagerado, muito de filme – só que é verdade.)
*Likewise, such a passion has a similar origin. Where from came all these things which we touch and use?  Where from came that which covers our children? How did it all came here? Who did this? Our family is actually to think about the people who gave their attention and energy so that we had a countertop in the kitchen, a blanket on the armchair, a sweater in the wardrobe. (And we don’t like the feeling of a gigantic manufactering plant, inhabited by people who don’t know how it is to be tired anymore, surrounded by abadoned fields or rivers dyed by the same colour as the clothes coming out of the plant. It all seems so exagerated and unreal, like a movie – despite that fact, it is true.)*

Como começou? Posso sempre dizer que o exemplo de outras pessoas me inspirou. Só que seria difícil nomear e apontá-las a todas. Os amigos, os conhecidos, os breves artigos que se lêem aqui ou ali, uma conversa algures, e as ideias vêm ter connosco. E foi no verão passado que me dei conta da sua clareza: “fazer malha? tem de ser com malhas portuguesas. não compres mais de outras. entra no ecossistema das malhas portuguesas. ela já investiu com a sua pesquisa, com o seu tempo, com a sua busca, outras já investiram com muita criatividade, outras pessoas continuam a ter interesse, outras vão ficando curiosas. e tu? tu páras de sonhar e comprar das outras. vá, esquece lá a noro e a malabrigo, são magníficas, sim, mas arranja este papel para ti. fica só com malhas portuguesas nas mãos, pronto.” E fiquei.
*How did it all begin? I can say that I was inspired by other people’s example. But it would be really hard to name and point everyone. Friends or people I just knew somewhere, articles I read here and there, a conversation, something you hear, and there you are: the ideas came and get into your head. And last summer I became aware of this clear and simple idea: “knit? you have to do it with portuguese yarn. don’t buy others. get into the portuguese yarns ecossystem. that person overthere has been investing her research, her time, her search, others have invested a lot of creativity, others are more and more interested and curious about it. and you? stop dreaming and wishlisting. forget noro and malabrigo. they’re incredible, yes, but you have to get into this role. with Portuguese yarns in your hands. that’s it.” So I did.

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A pouco e pouco o escasso património de novelos e restos de novelos que vieram de longe vai desaparecendo. Veio da alemanha e sobra um restinho de Zitron (Trekking Hand Art), que me serviu para o meu 1º par de meias. Veio do japão e sobra um restinho de Noro para meias; mais os dois novelos de Noro Kibou que já tricotei e entretanto desfiz. Veio do uruguai e sobra três restinhos de Malabrigo, que usei para fazer luvas mitenes e meios dedos. E acho que é isto.
*Little by little, the small stock of skeins caming from far away has been diminishing. From germany it came and now it’s only left a tiny little ball of Zitron (Trekking Hand Art), that I used for my 1st pair of socks. From japan it came and now it’s only left a tiny little ball of Noro for socks; plus the Noro Kibou two skeins that I actually already knitted and then undid. From uruguai it came and now there are only left three tiny little balls of Malabrigo, that I used for my mittens and halfinger gloves. And that is all.*

Desde o meu aniversário do ano passado, direcionei a minha escolha. Lãs portuguesas. Do alentejo, do minho e da serra da estrela. Pensem na pegada ecológica destas lãs! Pensem no potencial de sustentabilidade destas lãs! E são lindas. Sim, apesar de virem de tão perto, são lindas de morrer.
*And since my birthday, last year, I directed my choice. Portuguese wool. From alentejo, from minho, and from serra da estrela. Just think about the ecological footprint of these wool! Just think about its sustainability potencial! And they are gorgeous. Yes, despite the fact that they travelled so little, they are absolutely lovely.*

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E também há algodão!!! Até podemos começar a sonhar com o verão…
*And there is cotton yarn too!!! We can start dreaming with the summer…*

Não tenho especial habilidade para o tricot ou para o crochet. As minhas peças são, em grande parte, feitas a partir de padrões e receitas criadas por outras pessoas, e podem nem sequer estar executadas ao milímetro. Mas tenho este amor e esta paixão (ou, diriam alguns, obsessão!) que, acho eu, não têm preço.
*I’m not specially skilled for tricot or crochet. My works are, for the most, made from patterns created by others, and may not be accurately executed. But I do have this love and this passion (obsession, some may say) and these, I guess, have no price.*

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