era uma vez uma lã | once upon a time there was this wool

(Preparem-se: este vai ser um daqueles posts longos!)
*(Are you standing? Grab a cup of coffee and sit comfortably. This will take you some time.)*

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Era uma vez uma lã portuguesa que se chamava João. Tímida, vinda do sul do país, apenas tinha quatro cores: azul, rosa, branco natural e castanho natural. Um dia, as malhinhas da mamã foram desafiadas por uma mamã: seria possível fazer este casaco para o D.? Sim! Venham daí os novelos de João azul e força nas agulhas.

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*Once upon a time there was a Portuguese wool named  João. Shy, coming from the south of the country, it only had four colours: blue, pink, natural white and brown. A fine day, *as malhinhas da mamã* were challenged by a mammy friend: would it be possible to make this cardigan for D.? Oh yes! Let’s get a big lot of João blue skeins and start knitting.*

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Quanto tempo demorou?
Vamos lá ver, de 27 de novembro a 10 de dezembro… quantos dias são? Da perspetiva de uma tricotadeira são como meses, devido a tantas tarefas diferentes: trabalho nas malhas, esticar/fixar a peça para medir, voltar às instruções do padrão original, encomendar mais uns novelos, mudar o cabo das agulhas, desfazer com cuidado para não perder o fio à meada, bom, muitas tarefas.

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*How long did it took?
Let’s us see, from the 27th november to the 10th of december… how many days do you count? From a knitter’s perspective it’s like months, due to the various tasks involved: working the stitches, stretching/pinning the piece to measure it, re-reading the original pattern, ordering more skeins, changing the needles cable, undoing carefully to keep the yarn controlled, well, a lot of tasks.*

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O padrão
As fotos que acompanham o padrão original, publicado neste blogue, foram partilhadas em páginas do Facebook e por essas bandas fizeram algum alarido, porque o resultado final é realmente fofo. Para concretizar o padrão, porém, foi necessário ler e ler o padrão original (que é vago, propositadamente generalista e aberto ao gosto particular de cada um), testar e retestar dimensões, contagens, enfim.
A lã, por seu lado, era mais suave do que eu pensava e mais fina do que eu imaginava. O padrão pediu-me que usasse dois fios ao mesmo tempo.
E assim *as malhinhas da mamã* entraram em ação: digamos que, para resumir, fiz e desfiz o casaco três vezes.
*The photos that illustrate the original pattern, published in this blog, have been being shared around by Facebook pages and captivated a lot of people, because the final result is actually cute and rather sweet. Though, to get it real, I had to read and re-read the original pattern, which is vague, openly generalistic and open to everyone’s personal details and taste. I had to test an re-test dimensions, countings, measures, whatever.
The João wool, on the other hand, was softer than I thought an thinner than I expected. The pattern was asking me to use to strands at the same time.
So, *as malhinhas da mamã* we struggling here and, to sum up, the cardigan was made(and unmade) three times.*

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Orgulho
Depois de tudo isto, concordem ou não, uma ideia será clara: a compensação por trabalhar desta maneira específica (à mão) e por trabalhar com uma lã tão especial não pode ser apenas o dinheiro. Cansar as mãos, preencher horas e horas a fio, sentir a capacidade de dar forma e utilidade a uma matéria natural, eternizá-la como peça de roupa que poderá ser trocada e vestida por muitos. E, acima de tudo, persistir, ao desfazer e refazer. Há quanto tempo não desfazia tantas vezes uma mesma peça. Não quero com isto dizer que as pessoas que compram/encomendam fiquem libertas de pagar mais ou menos por cada peça. Estou sim a falar do valor intrínseco do trabalho em si: um valor que se estende tanto a quem usa a peça (por deter uma peça única e irrepetível) quanto a quem a elaborou (por ter vivido um percurso único e igualmente irrepetível).
Para mim, pessoalmente, há ainda uma compensação adicional. Fiz com que mais uma pessoa use uma peça de lã portuguesa, lã que nasce e é transformada aqui tão perto. É tudo culpa minha e isso dá-me um grande orgulho.

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*Pride
After all that is said and done, agree it or not, one particular idea turns true: the payment for working in such a way and with such a special yarn cannot be just the money. Working and creating with your own hands, getting hold of your minutes and hours, feeling able and useful, transforming a natural thing into something wearable and handy, giving a new life to an almost dead material. Besides, enduring, doing and undoing. Oh my!
With all this I don’t mean to say that those who buy/order are excused from paying. I’m just pointing to the intrinsic value of the work done: a value that is shared both by those who wear it (because they own an unique thing) and by those who made ir (because they did it in an unique way).
From my point of view, there is actually one more payment. Because of me, there’s is one more person wearing a piece made with Portuguese wool, that kind of wool that is born and produced almost in the neighborhood. It is all my fault and I feel really proud of it!*

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