sobre motivos e padrões | thinking about motifs and patterns

[Avisos prévios: 1 – Este post não é para ajudar ninguém. 2 – Sem fotos. 3 – *No need to scroll down for english – no translation, sorry.*]

À medida que avanço nas minhas meias da concha (e vou ensaiando uma espécie de tutorial com fotos e mais dicas e blábláblá), dou por mim a pensar a sério (e olhem que eu nem sou pessoa de pensar muito) na importância dos motivos e dos padrões.
Que importância têm? Que significado ou valor poderão ter os motivos e padrões ditos “tradicionais”? E o que haverá de diferente entre os tradicionais daqui, do meio onde cresci, inspirados em experiências e práticas e histórias, e os que vêm de fora, dali, desligados de um país/cultura/contexto/pessoas?
E quanto mais me embrenho nestas perguntas e olho para os livros que fui comprando nestas lides das malhas, mais me vou sentindo desligada de uns motivos e padrões e mais vou sentindo envolvida por outros.

Olha que realmente! Há tantos padrões disponíveis, gratuitos, apelativos, com motivos engraçados. Para quê complicar? Especialmente quando nos indicam as instruções para usar um fio específico, de uma marca particular, e nós só precisamos de replicar cada passo, para quê complicar?

  • Resposta 1
    Parece-me a velha história de sempre.  Porquê comprar feijão seco avulso e cozê-lo em casa, quando se tem uma prateleira coberta de frascos com feijão cozido e temperado de sal no supermercado (e super barato)? Porquê tricotar meias de lã e remendá-las duas vezes, quando se pode ir a uma qualquer loja comprar um par de meias grossas (e super baratas)? Porquê procurar e encomendar meadas de lã produzida artesanalmente, como a de Bucos (e esperar que fiquem de novo disponíveis!!!), quando se pode comprar novelos tão macios de lã pura vinda de ovelhas de aviário (e tão super barata)? Porquê gastar tanto dinheiro numa “simples” pega de cozinha? Tenho muitos porquês destes mas vou-me conter! 😀 A velha história é esta: é a economia capitalista que se alimenta de cada pequeno gesto nosso, de cada escolha que pensamos estar a fazer, é este sistema de valores (sem valor espiritual no sentido mais pleno) que se alimenta da nossa fome de ser/parecer algo. Passo a passo, as formigas, tão pequenas, alteram a paisagem do meu jardim e obrigam-me a mim a reformular a disposição das coisas. Assim acontece também com as próprias plantas, que não se movem, mas existem, estão presentes, emanam, interagem. Ou seja: porque nós podemos mudar o mundo!!! Porque as boas ideias são sempre assim: simplesmente boas.
  • Resposta 2
    Não é complicado. A Rosa Pomar até já fez boa parte do trabalho por nós! Olhem-me só esta coleção de padrões tradicionais: uns neste livro e outros aqui no ravelry!

Então qual é a diferença? O que têm os motivos e padrões tradicionais de especial? E qual poderá ser o interesse de recuperar um motivo sob a forma de um padrão tricotado?
Vamos lá ver se consigo responder, talvez por partes, talvez com ajuda de um blogue que me dá muito gosto ler.
Um motivo é como qualquer outra ideia ou pensamento: ele não nos pertence, nem está dentro da nossa cabeça. Um motivo tem um significado intrínseco – ao qual, naturalmente, poderemos acrescentar mais. Um motivo que foi concretizado por outras mãos, num outro lugar, num outro contexto, servindo um determinado propósito, e que foi sendo replicado ou reformulado em diferentes lugares/contextos, esse motivo tem a sua própria corrente de significados/energias/valores.
A experiência partilhada pela Sara, por exemplo, é forte: reviver um motivo de uma mesquita numas meias feitas e usadas por nós deve ser, no mínimo, especial.
Um motivo como o do padrão “montanhac”. Vi-o ao longo destes anos, nos trabalhos da Rosa Pomar, mas, não sei porquê, aquele tipo de motivos geométricos não me dizia nada. Esta semana dei de caras com ele no padrão aplicado para gorro está aqui no ravelry. Pensado para lãs portuguesas. Talvez seja porque ando a falar sobre o ciclo da lã a meninos pequenos, mas fez-se-me luz! Que fantástico seria usar lã de ovelhas portuguesas, que andam pela serra, para replicar padrões antigamente usados em peças de roupa/mantas os próprios pastores! (Tudo isto é muito “retro”, eu sei – e esta é uma ideologia sobre a qual tenho mesmo de escrever melhor um dia destes…) Fiquei curiosa com esta coisa dos motivos tradicionais.
Portanto, pensem comigo: pensem nos valores/emoções que cada motivo ou padrão transporta consigo e pensem que estamos a trazer esses valores e emoções para o nosso trabalho quando o concretizamos com as nossas agulhas. Por isso é que, na minha experiência, penso nas cobras e sardaniscas que se escondem pelas ervas e lembro-me do que a minha avó me dizia (“agora é a hora das cobras, vai lá fazer a sesta!” – e ela tinha pavor de tudo o que era réptil), enquanto tricoto cada barrinha de quatro malhas de cor e as duas malhas que as separa – fabulosas meias da concha!

Mas isto sou eu. Sim. Mas mas mas. E até há um lado muito perverso (pelo menos, para mim). Quando uma empresa se apropria de um motivo “tradicional” e o toma como componente intrínseca da sua identidade. Assim acontece, por exemplo, com a MillaMia (Suécia). Esta empresa comercializa fios de lã de ovelha, que são produzidos na Itália (?!), e a sua imagem de marca é um motivo de inspiração sueca. Notem ainda na na imagem da fotografia idílica que acompanha o texto “Our philosophy”. Infelizmente, apesar da carga ideológica do motivo “escandinavo” e desta foto, a lã desta marca não está lá muito ligada à Escandinávia. Ora ora, os motivos é que são “escandinavos” (e serão mesmo? não vejo lá quase nada do que este livro aqui tem! LOL) e servem de isco para as pessoas comprarem a lã.  😛 Pois, pois, dirão alguns, e a Retrosaria da Rosa Pomar faz exatamente o mesmo: apresenta-nos padrões tradicionais (só que estes são mesmo tradicionais porque foram recolhidos através da pesquisa e do estudo – mas isso é só um detail, pois pois) que servem de isco para comprarmos… lã de origem e produção portuguesa (que só é mesmo portuguesa proveniente de ovelhas que por cá moram e vivem e trabalhada por pessoas reais que até podiam ter isto como emprego mas como somos poucos a comprar não dá, ainda)!!! AH!!!! Isto agora lembrou-me uma pescadinha de rabo na boca.
Hum. Acho que não vou ter tempo nem paciência para traduzir este post…. sorry english followers.

E eis uma nova caminhada – e uma nova categoria no blogue: padrões tradicionais | traditional knitting patterns.

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