experimentar | the first time

Parece uma banalidade mas não é: a maioria dos meninos e meninas do jardim de infância nunca tocou num novelo ou meada de lã portuguesa. E isso preocupa-me. A maioria dos meninos e meninas nunca viu como se tira a lã de uma ovelha, nunca viu o que acontece desde esse estranho casaco até ao fio. Também não é um cenário familiar a atividade de construir/experimentar algo com esses fios: seja uma peça de roupa, um objeto decorativo ou um brinquedo.
Levei novelos grandes e pequenos de lã de cores naturais: Bucos branco, um restinho de Mirandesa branco. Levei uma meada de Beiroa 2ply castanho natural. Novelos de cores tingidas: João azul, João rosa, Cobertor cenoura, Zagal roxo, Zagal amarelo, Beiroa limão. Levei novelos com etiquetas (como as lindas da João e da Bucos).
Levei agulhas de vários tamanhos e matérias. Levei peças acabadas (camisola, gola, meias) e peças em curso (meias).
Levei livros e mostrei fotos. Levei o computador e mostrei vídeos e mais fotos.
Falei sobre ovelhas felizes porque vivem na natureza e têm donos que tratam delas. Falei sobre pastores, pacientes, sobre tosquia, sobre mulheres que cantam para não adormecer enquanto trabalham a lã.
Terá sido um pouco lírico, quimérico (?!), onírico, utópico. Terá sido exagerado. Para mim faz parte: não me chega ficar em casa a tricotar e a usufruir do luxo das lãs portuguesas. Quero que façam parte, nem que seja por uma só tarde/manhã, da vida destas crianças.
Como me dizia a professora da minha filha L. (que anda  na primária), é muito bom ser uma pessoa adulta nova a mostrar estas coisas – ajuda-se a quebrar o estereótipo que a malha é coisa de velhinhas. Eu acrescento: combate-se pela “normalização” desta atividade (assim mais ou menos no espírito dos gangues da malha e suas presenças em lugares públicos).
No meio de tudo isto, uma das atividades especialmente curiosas foi pedir aos meninos que tocassem na Cobertor e na João e dissessem qual lhes parecia ser a mais fofa/macia. As respostas não foram unânimes e isso encheu-me de satisfação. A ideia da lã que pica é isso mesmo: uma ideia. Uma ideia tão propositadamente construída como outras que fui conhecendo ao longo da minha vida (e que fui aprendendo a desconstruir), sei lá, como a d’ “o leite é o alimento que tem mais cálcio”…
Obrigada à educadora e à professora por me deixarem entrar. Obrigada aos meninos por terem experimentado. 🙂 Ainda vai haver mais, e da próxima é com fuso!

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2 thoughts on “experimentar | the first time

  1. Pingback: imperdoável | unforgivable – *as malhinhas da mamã*

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