madeira, fumo e outras impressões | remembering wood, smoke and other impressions

*Scroll down for English version. Thanks!*

Aposto que consegues encontrar alguns destes livros nas estantes dedicadas à Antropologia e à Etnografia numa biblioteca municipal ou universitária perto de ti.
Não sou rato de biblioteca, mas gosto de passar horas a folheá-los. A mim, livros como estes ajudam-me a lembrar e a perceber. (As imagens acima são fotografias que tirei a este livro.)
*I bet you can find some of these books on Anthropology and Ethnography shelves in a public library nearby. I’m not a bookworm, it’s just that I love spending hours leafing through them (this English looks/sounds weird). This kind of books help me remember and understand. (The images above are photographs taken from these book.)*

Gosto (e preciso) de me lembrar com mais força do que havia na aldeia dos meus avós (um lugarzito que fica no meio da Serra do Açor, muito perto da Paisagem Protegida). Do que lá havia e já não há agora. Porque eu era pequena, porque as memórias têm a sua vida própria, porque me confundo toda. Por exemplo, a madeira. A madeira das portas, o escuro e o cheiro a fumo.

A madeira era escura. Nas portas de entrada e, especialmente ainda mais escura, dentro de casa. Hoje que penso nisso, vejo que havia madeira escura por todo o lado. No soalho, nas arcas, poucas, que guardavam as coisas e serviam de armário, nas gamelas enormes onde se amassava o pão, naquelas portadas estranhas das janelas, naquela estrutura que segurava a braseira.

Era o fumo que enegrecia a madeira, e era o tempo. E… o ser madeira de castanheiro (ou “castanho” como dizia a minha avó), será que isso tinha influência nesse enegrecer? Hum… Quando vejo estas fotos das portas, aquela trave grande e grossa de cima (que terá mil e um nomes conforme a região) e aquela tranca (que também terá mil e um nomes…), penso na madeira escura e lembro-me do castanheiro e do que tenho aprendido sobre a sua história.

O castanheiro, árvore autóctone da Península Ibérica, não beneficiou de sorte igual às árvores “estrangeiras” (como os pinheiros). Os poucos castanheiros que restam estão guardados a sete chaves (espero eu), em reservas e parques naturais. E não houve na história do nosso século vinte ninguém a ter a ideia genial de plantar e replantar este tipo de árvore. Os pinheiros, esses sim, foram semeados um pouco por todo o lado – até nos sítios onde não havia árvores, no meio das serras, no meio do mato.

No meio das serras? Mas as serras não são há séculos assim mesmo, florestadas? Não. As serras como a Serra do Açor ou a Serra da Lousã (a esta reportam as fotos) são originalmente cobertas de pedra (xisto) e de mato. O mato que hoje em dia não parece ter qualquer utilidade era há um século atrás de importância crucial para os habitantes da serra.

Como ensina Monteiro (1985), o mato era a matéria-prima para o combustível: o carvão. O mato era também fonte de alimento para o gado (ovelhas e cabras). Um plano nacional de florestação (que teve início nas primeiras décadas do século XX), intenso e determinado, veio reorganizar os espaços das serras. Árvores de crescimento mais rápido, alinhadas, criando uma paisagem florestal adequada a passeios, ao turismo e… à futura indústria do papel. O tipo de coisas que afinal nem acontece só na Amazónia…

Suspiro. (…)


Referência completa do livro citado:
AA.VV. (1984), Artes e Tradições de Vila Real. Lisboa: Terra Livre. Coleção “Arte e Artistas/8”.
Paulo Monteiro (1985), Terra que já foi Terra – Análise sociológica de nove lugares agro-pastoris da Serra da Lousã. Lisboa: Edições Salamandra. Col. «Tempos Modernos».


Here is the English version! 🙂

I enjoy (and I do need to do that) remembering what existed in my grandparents’ village (a rather little place in the middle of Serra do Açor, close to Paisagem Protegida). What existed and what didn’t existed. Because I was little, because memories have a life of their own, because my ideas are all mixed up. 
For example, the wood. The doors’ wood, the dark and the smoky smells.

The wood was rather dark. In the entrance doors and, darker yet, inside the house. When I think about it I reckon that there was dark wood all over the place. The floor was wood, the few chests, the huge bowls where the bred was knead (?), the windows’ strange panels, the stuff that contained the fire pit. All made of dark wood.

It was the smoke that darkened the wood, and the time. And… what about the oak, it was oak wood, could it be that this had some kind of influence in it? Well… When I see these photos, these doors and the pieces they are made from, I remember the dark wood and the history of the oaks, such a history I have just started to learn about.

The oak is a native around here, Iberian Peninsule, but it has not been so lucky as other “foreign” trees (like pines). The few oaks that are left, still alive, are locked (I hope) in protected sites and natural parks. And it seems that there was no great plan of planting them all around. On the contrary, pines were sowed and planted all over the country – including places where there were no trees at all, such as the “serras”, those rocky, hard, bush populated hills and mountains.

Bush – rocky moutains? With no trees? No trees at all? Yes. Just a century and a half ago, these places had no thing has trees. Serra do Açor, like Serra da Lousã (to which the photos relate) have been, for large centuries, covered with rocks and bushes. Those bushes, that seem so useless today, were precious to the people who lived nearby aroud 1900…

I read this in Monteiro (1985): those bushes (“mato”) were a source of energy, the oil of those places, used to make coal. Those bushes also fed, and made the bed, of the cattle (sheep and goats). A forestation national plan (beginning around 1910…) was led and implemented during decades. A national disaster that few have the courage / the clarvoiance to reckon. Faster-growth trees, all arranged, organized the sights and created a great scenary for tourists.. and to (future) large paper producing comportations. These kind of things don’t just happen in Amazonia…  

Sigh. (…)

Reference:
AA.VV. (1984), Artes e Tradições de Vila Real. Lisboa: Terra Livre. Coleção “Arte e Artistas/8”.
Paulo Monteiro (1985), Terra que já foi Terra – Análise sociológica de nove lugares agro-pastoris da Serra da Lousã. Lisboa: Edições Salamandra. Col. «Tempos Modernos».

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